Expressão Plástica

Chegou a vez de Lisboa receber a exposição “Cru – O Corpo (im)Perfeito”

É já na próxima segunda-feira (2 de março) que fica patente em Lisboa a exposição “Cru – O Corpo (im)Perfeito”, que reúne desenhos e pinturas dos utentes do Departamento de Expressão Plástica da APCC. Será no espaço A Sala, em São Bento, e ali ficarão expostas, durante duas semanas, 30 obras em que o olhar da pessoa com deficiência sobre os outros corpos e o seu próprio é o fio condutor de um percurso em que se procura (des)construir a ideia de Belo.

A coleção de quadros resultantes do projeto com o mesmo nome (que, no seu conjunto, chega às quatro centenas de trabalhos) é a concretização de um processo que começou com o desafio simples de desenhar qualquer corpo e se foi transformando progressivamente numa provocação: por oferecer ao público uma visão com a qual este raramente – se alguma vez – se confrontou e por desafia-lo a transformar o (seu) paradigma de corpo perfeito.

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O Lar Integrado é agora também uma galeria: de histórias e de artistas

No Lar Integrado da APCC, os dias já são, por norma, recheados de histórias, tanto pelas interações entre utentes de diferentes origens e percursos de vida, mas também já com muitas vivências em conjunto, como pelas novas narrativas resultantes das atividades em que estes se envolvem regularmente. Só que agora, até nas paredes há histórias a serem contadas, com aquela unidade residencial a ser ‘transformada’ numa espécie de galeria de pintura.

Várias obras que integraram coleções ‘nascidas’ nas aulas do Departamento de Expressão Plástica ao longo dos últimos anos fazem parte, desde o passado fim de semana, do quotidiano de utentes e colaboradores do Lar Integrado. São marcas pessoais e identitárias dos seus autores, alguns dos quais ali residentes, e também motivo para novas interpretações e muitas conversas sobre formas, tons e, o mais importante, sensações.

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APCC loves culture, ou a crónica do ‘regresso’ em grande do programa APCCCultura

Nada do que é feito no âmbito do APCCCultura pode ser descrito como ‘normal’, desde logo porque o seu enfoque está em questionar tudo. Mas, por paradoxal que possa parecer, o mais relevante deste programa – através do qual os utentes da APCC têm a oportunidade de conhecer mais do mundo e nele participar ativamente, nomeadamente nas vertentes artística, cultural e de lazer – é que ele permite a maior das normalizações, ajudando a desconstruir a imagem da deficiência, tanto em termos sociais, como da própria consciência de si mesmos por parte dos envolvidos.

Um bom exemplo disto mesmo, que é simultaneamente um sinal dos objetivos que o programa pretende atingir durante os próximos meses, foi a primeira iniciativa realizada no corrente ano, com um grupo de utentes a deslocar-se a Águeda para assistir a “Romeo Loves Juliet”. Nesta peça, em que o Crinabel Teatro trabalha “Romeu e Julieta”, são os atores daquele grupo (todos pessoas com trissomia 21) e as suas motivações pessoais e artísticas a determinar a reescrita do clássico de Shakespear.

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Veja o catálogo da coleção “Cru – O Corpo (im)Perfeito”: cerca de 200 desenhos e pinturas, já à venda

“Cru – O Corpo (im)Perfeito” é uma coleção de mais de 200 desenhos e pinturas, em que se juntam e se cruzam olhares sobre o (paradigma do) corpo perfeito, ao mesmo tempo que é colocada em causa a ‘normalidade’ dos modelos corporais: os dos que com ela se confrontam, mas, antes disso, os dos seus próprios autores. É uma provocação e um convite: (des)construir a ideia de Belo e permitir que estas criações atuem emocionalmente sobre cada um, como qualquer outro produto artístico, e o transforme.

Fora do ateliê do Departamento de Expressão Plástica da APCC, onde foram concebidas, as obras que constituem “Cru – O Corpo (im)Perfeito” encontraram o seu espaço numa exposição itinerante, que começou no Porto, no final do ano passado, e seguirá ainda este mês para Lisboa, cumprindo até julho um trajeto por outras cidades portuguesas. Mas ainda antes disso, são mostradas também em catálogo e disponibilizadas para venda.

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Fotografias de ateliê do projeto “Cru – O Corpo (im)Perfeito” foram expostas no Conservatório de Coimbra

E no princípio eram as pinturas – mais de 300, cerca de uma centena das quais atualmente expostas no Porto. Mas o projeto “Cru – O Corpo (im)Perfeito” foi também, além do caminho que levou aos seus produtos artísticos, um ateliê (“O corpo, os outros e nós mesmos”) em que utentes do Departamento de Expressão Plástica da APCC partilharam o palco com o grupo Era Uma Vez… Teatro, da Associação do Porto de Paralisia Cerebral, e a sua diretora artística, Mónica Cunha.

O que aconteceu nesse dia de novembro deste ano – os exercícios em torno do(s) corpo(s) enquanto elemento gerador de novos sentidos, o questionar do conceito de arte, a reflexão sobre a importância de comunicar com o outro – foi cristalizado em fotografias, instantâneos que são o testemunho sobrevivente daquele encontro, tal como as memórias que o mesmo deixou nos participantes, ‘falando’ com a eloquência particular do que não precisa ser verbalizado para ser intuído, para ser sentido.

Ontem...

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